Pela primeira vez, eu chorei.
Há um ano, o deslizamento do Morro do Bumba, em Niterói, do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, e várias outras ocorrências causadas por fortes chuvas determinaram que 7 de abril de 2011 seria a data de aniversário de uma tragédia que fez muitas vítimas, interrompeu muitos sonhos e mobilizou todo o Brasil. Jornalistas do Rio de Janeiro, portanto, chegaram ao trabalho no dia 7 de abril de 2011 sabendo que a pauta do dia envolveria o sofrimento de quem está há um ano tentando juntar os cacos e reconstruir uma vida perdida. Eu, claro, faço parte dessa turma. Só que nenhum de nós sabia que outra tragédia estava prestes a acontecer.
Eu procurava pelo contato de um pai que perdeu o filho em um desmoronamento no ano passado, quando o chefe de reportagem anunciou: “Quinze crianças foram baleadas em um colégio, em Realengo. Vamos correr.”. Eu fui.
Os dias seguintes ao massacre da Escola Municipal Tasso da Silveira foram exaustivos para quem trabalhou nesse caso. Horas em pé nas portas dos hospitais, dias inteiros em frente ao palco da tragédia, plantões no Instituto Médico Legal, nos cemitérios, nas casas dos envolvidos. Enfim, muitos profissionais estão trabalhando exaustivamente desde a manhã do dia 7 de abril em busca de informações. Procuramos respostas para todo tipo de pergunta. Seja com autoridades, vítimas ou testemunhas.
Não me importa agora discutir o tipo de cobertura que foi feita do caso. Por ora – sem o distanciamento necessário, reconheço -, o que sei é que muitos erros e acertos foram cometidos, como sempre acontece. Afinal, jornalista também entra em pânico e se desespera no meio de pais em busca de notícias de filhos sumidos. Do nosso lado, a necessidade de informação é latente em momentos de crise e não pode ser controlada. É quase um vício, uma cachaça, como dizem alguns por aí.
Pois bem, cumprindo meu papel profissional, acompanhei de perto tudo relacionado ao massacre de Realengo. Ultrapassei algum limite moral? Espero que não. Se sim, tenho, em minha defesa, o direito de dizer que não foi intencional.
Foi assim que, na terça-feira passada, dia 12, conheci o Valdeci. Ele é pai do Luan, a última criança a sair do estado grave. Fui até o hospital onde o menino está internado conversar com o pai. O quadro clínico do Luan já apresentava melhoras e ele aceitou conversar comigo para explicar isso. Segundo ele, familiares que moram longe estavam preocupados com o que sabiam pelo noticiário. Conversamos rapidamente e dava para perceber que o Valdeci tinha aprendido um novo jeito de sorrir: com os olhos. Ele todo era só sorriso. Em meio a tantas notícias ruins, foi revigorante conversar com aquele homem tão cheio de esperança, que mostrava uma crença incondicional na recuperação do filho.
No dia seguinte, quarta, quando eu achava que passaria emocionalmente incólume por essa tormenta, eu cheguei à missa de sétimo dia das crianças mortas.
No enterro do menino Rafael, o pai dele já tinha chamado minha atenção. Não havia choro, desespero, nada que demonstrasse dor no rosto daquele homem. Na missa, ele estava do mesmo jeito: sem expressão. A mãe, chorando, inconsolável. Ele, de pé, calado, com o olhar distante. Observando melhor, eu percebi que ele tinha na camisa uma foto com o filho. E o sorriso aberto. Entendi, naquele momento, que a dor dele era silenciosa e que, ao contrário do Valdeci, ele todo era só tristeza.
E, então, chorei. Discretamente, claro, porque jornalista não chora, não se envolve, não é parcial.
Esses dois pais fizeram, de maneiras diferentes, eu sentir na pele, pela primeira vez, o que é ser jornalista. É se envolver e ser parcial quando preciso. É dizer que está rezando pela recuperação do Luan e chorar pela morte do Rafael.