Eu gosto de não confiar plenamente

Confiança – “como tudo na vida”, dirão os contestadores – envolve riscos. Grandes riscos. Não é à toa que os dois primeiros ditados que eu lembro relacionados a confiança são um tanto quanto arriscados. Vejamos:

- Eu confio de olhos fechados em você.

Por que fechar os olhos para confiar? Para tornar mais emocionante o que deveria ser, na verdade, totalmente seguro? Eu sei que o sentido do ditado não é esse, mas vai que a pessoa dá uma vacilada e você tá lá, bobão, de olhos fechados. Já era… “E daí que o motorista não viu que o sinal estava vermelho?”, dirá São Pedro ao encontrá-lo no céu. Se você estivesse com os olhos abertos, poderia ter berrado: “OLHA O SINAL!”. Teria evitado a tragédia e o encontro precoce com o dono das chaves do paraíso. Prosseguindo:

- Ah, eu coloco minha mão no fogo por você.

Não preciso nem dizer o que acontece se a pessoa dá uma derrapadinha, não é? Tchau, mão!

Todos estamos suscetíveis ao erro, ao deslize, ao engano. É normal. Aliás, é mais natural que a perfeição (vide exemplo do filme Cisne Negro). O problema da confiança é que ela logo abre as porterias para aquela sensação de “infalibilidade”. E eu não falo só das relações humanas. Claro que é mais fácil convencer você, caro interlocutor, de que meu argumento tem seu valor, se eu citar um exemplo humano. Vamos lá.

Quem nunca disse: “mãe é mãe”? É tentador confiar incondicionalmente no amor materno, é quase automático. Mas já pensou se sua mãe acorda, em um não tão belo dia, achando que parir você foi a pior coisa que ela fez na vida? É triste, mas será que ela não tem esse direito? Brigar com mãe também é moleza. Ela sempre perdoa, abre os braços, oferece o colo. Eu quero ver se ela estiver no meio de uma TPM daquelas…

Não convenceu, não? Restam as situações práticas.

Motoristas que acabaram de “conquistar” a carteira raramente fazem barbeiragens catastróficas (exceto eu, que derrubei o portão do prédio). Já os experientes… São os donos da rua, cheios de si, de confiança em si. Quando algo dá errado, o jeito é torcer para não encontrar São Pedro, e reclamar do outro motorista, que foi o culpado, claro.

Computadores. Essas máquinas maravilhosas também não são dignas de confiança. Esse post mesmo só saiu porque eu estou com uma espécie carga extra de força de vontade hoje. Inocente que só eu, estava escrevendo direto na janela do navegador. Cópia de segurança para quê? Salvar rascunho? Não, o melhor mesmo é fechar a aba acidentalmente e perder o texto inteiro. (Agora sigo com a “ajuda” do Word).

Os dois últimos exemplos foram meio caídos, mas a intenção é mostrar que a confiança é injusta em qualquer situação. Ela frustra, decepciona e traumatiza. Não sou (talvez) a super desconfiada, mas acho que não custa muito manter sempre um back up para casos de pane no sistema. Felizmente, ninguém é infalível. A perfeição é chata, sem surpresas, intempéries, improvisos. Isso não serve de tempero para a vida, não.

***

Como esse é o primeiro post de 2011 (“Harame”, diria uma amiga) e o Carnaval ainda não chegou (o que significa que é 2010 no Rio de Janeiro), ainda dá para desejar um feliz ano novo para os aguerridos leitores desse blog! Obrigada pela companhia e paciência. Que este novo ano seja maravilhoso!

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