Espera. Começa a esboçar ideias na mente. Parte para o papel, rabiscando letras tortas que podem se tornar um texto. Talvez, esse texto.
É uma dependente tecnológica. Demorou a se tocar, mas ficar alguns minutos esperando pelas amigas a fez perceber como a presença – ou, neste caso, a ausência – dos aparelhos eletrônicos afeta a própria vida.
Durante a espera, só restou esperar. Sem celular – esquecido em casa, na pressa de chegar na hora marcada -, não dava para saber se as amigas estavam chegando, se já tinham saído, se iam demorar. Mesmo que ligasse para uma delas e ouvisse: “Estou saindo de casa”, quando, na verdade, a amiga estava mesmo saindo do banho, já seria um consolo. Pelo menos, ela estaria vindo.
Sem celular, também não dá para acessar o Facebook e fazer um daqueles testes sobre a sua personalidade, a data do seu casamento ou descobrir que personagem você seria na sua série favorita. Nada de Twitter para reclamar: “no restaurante, esperando minhas amigas há cerca de 30 minutos. os garçons já me ofereceram, pelo menos, uns 30 sabores diferentes de pizza.”. Na mente dela, lá se foram os 140 caracteres.
Aliás, enquanto espera, é preciso explicar para o garçom do restaurante: “Obrigada, não vou me servir agora, estou esperando duas amigas. “. Cinco vezes. Rodízio de pizza requer um número maior de funcionários atendendo todas as mesas. Abriu um bloco branco preparada para escrever um bilhete explicando que esperava duas amigas. Quando viu a folha, pensou: melhor fazer um texto para o blog.
Rapidamente escreveu sobre o esquecimento do celular, o atraso das amigas e as perguntas dos garçons. Estava indo bem. Só era interrompida pelo som de pés na escada de madeira que dava acesso ao segundo andar, onde esperava. Parava, olhava, não eram elas. Voltava a escrever. Quando ia continuar o próximo parágrafo, as amigas chegaram. Com uma hora de atraso e mais três companhias.
Pausa.
Muitas fatias e um crepe da casa depois, conta paga, beijinhos de despedida. Desceu a rua do Catete, mais despedidas, entrou no táxi. Destino informado, começa a tagarelice mental:
Ainda bem que esse motorista é calado. Amanhã tenho que terminar aquele capítulo da monografia. Também não posso esquecer de copiar os filmes que eu não assisti antes de entregar na locadora. Peraí, que música estranha é essa que esse cara tá ouvindo? Coisa mais assustadora.
Chega um pouco para a esquerda e descobre que o taxista assiste SBT. Mas que novela é essa? Ana Raio e Zé Trovão? Ok! O motorista atende o telefone quando chega na rua dela. Por que? O jeito é interromper a conversa: “Moço, eu moro ali, em frente àquela banca de jornal. (Às vezes tem a impressão que vai usar essa referência para o resto da vida) Pode ir parando. Isso, aqui mesmo”. R$ 14,55.
Toma banho, veste a roupa de dormir e deita. Na manhã seguinte, vai achar que foi tudo um sonho, embora saiba que não lembra dos sonhos há mais de uma semana.
#nowlistening: A sua, Marisa Monte. (incansavelmente) Ouve aí!